
Projetei para o primeiro post, algo apaixonado, delirante, extraído dolorosamente - que convertesse em palavras minhas lágrimas e feridas que há tempos tento curar. Pensei em transpor às palavras as emoções. Eis que nada disso configurou-se e tento, com o discernimento que restou, tecer algo que reflita o que sinto. É difícil escrever, é difícil dar vida às palavras e guiá-las por entre pensamentos, sentimentos e gramática.
Uma vez escrevia sem usar as mãos, como criança que assim brinca ao andar de bicicleta, com a destreza que aquele singular momento proporciona. Hoje já não tenho tal habilidade, mas com jeitinho ainda dou boas voltas com a magrela!
Já tem três dias que estou em tratamento, não ando tão sonolenta e consigo falar um pouco mais. O raciocínio ainda é lento, os sentimentos parecem guardados em uma gaveta e a voz é por demais pastosa... É difícil acreditar que desenvolvi uma doença mental por conta de um esforço exagerado em carregar tudo sozinha. Não consigo dizer o que sinto, tampouco se sinto, sei que estou drogada para que o meu cérebro recupere-se, não gosto, mas preciso consentir. Parece-me que apenas a terça parte de mim está acordada, acredito que seja um adormecimento causado pelos inúmeros remédios. Ah, os remédios... Custo a aceitar que estou usando um antipsicótico, dois antidepressivos, um ansiolítico e mais alguma outra coisa de reserva para uma eventual crise. Sim, estou com a tal depressão maior, crise de pânico, crise de ansiedade e muito em breve, uma grande crise financeira – o custo de um tratamento psiquiátrico adequado é algo em torno dos R$ 440,00 por semana!(duas consultas e remédios). Um valor que minha remuneração de técnico judiciário não comporta por muito tempo! Ah, não tem psiquiatra conveniado ao meu plano de saúde na cidade. O mais próximo fica em Novo Hamburgo, mas como alguém que passa a maior parte do dia na cama vai deslocar-se até lá... Ops, sinais de reclamações no ar... Devo estar melhorando! Aproveito para elencar o rol de proibições do depressivo:
- dirigir;
- sair sozinha (nem pensar);
- ficar sozinha (agora tenho babá 24h);
- ficar na minha casa (estou na mamãe);
- cuidar das minhas filhas (só visitas);
- trabalhar (ops, parte boa!).
Isso sem falar que tenho consulta duas vezes por semana com o psiquiatra e devo ligar para ele todos os dias para fazer um breve relato de como estou, devo tomar os remedinhos na hora certa, dormir e comer na hora certa, ser uma boa menina...
Sorte de vocês que só restaram 30% de sobriedade, caso contrário já teria posto fogo no mundo!
Pelo menos não deixou de ser um post delirante...